3/12/2026
O que os jogos podem ensinar sobre engajar caminhoneiros
Quando sobram caminhões no pátio e faltam profissionais na boleia, operações apostam em estratégicas inspiradas nos games para fortalecer o vínculo com os motoristas
O cenário preocupa. Uma pesquisa do Instituto Paulista do Transporte de Cargas (IPTC), com base em dados do Registro Nacional de Carteira de Habilitação (Renach), aponta uma queda consistente no número de caminhoneiros habilitados no Brasil ao longo dos últimos anos. Em 2015, eram 5.605.511 condutores. Em 2023, esse número caiu para 4.364.508 — uma redução de aproximadamente 22% no total de profissionais.  Esse déficit é somado a agravantes igualmente preocupantes, como o envelhecimento da mão de obra, o desinteresse de jovens pela profissão e os desafios de integrar condutores às novas tecnologias – tema já abordado em [outro artigo aqui do blog](https://cargaonline.com.br/blog/gsn9yoeoe8oe77uh6e6d5ddb). Diante de tudo isso, a valorização do motorista ganha um papel estratégico nas operações. A gamificação tem sido amplamente utilizada nesse contexto. Ela nada mais é do que o uso dos elementos dos jogos - como um sistema de pontos e recompensas - para motivar pessoas a alcançar objetivos em atividades que não, necessariamente, estão ligadas ao entretenimento. Isso inclui a educação, o marketing e o mundo corporativo. Graças à disponibilidade de dados coletados diariamente pelas tecnologias embarcadas, a gamificação também se mostra útil para incentivar caminhoneiros a melhorar indicadores como economia de combustível, segurança, multas, ocorrências em clientes e outros tantos KPIs importantes para cada operação. Um exemplo é a Campanha Zero Acidente, promovida pelo Grupo Tombini desde 2013. Ao longo de sete meses, mais de 2.000 motoristas são avaliados com base em cerca de 20 critérios ligados a competências técnicas e comportamentais. Entre os indicadores analisados estão o respeito aos limites de velocidade, o cumprimento das regras dos clientes e da própria Tombini, o controle de jornada, o registro de avarias, acidentes e multas, além da participação em treinamentos obrigatórios. Ao final da campanha, os 100 motoristas com melhor desempenho são premiados e passam a integrar a chamada “Elite do Asfalto”, um selo reservado àqueles que se destacam em segurança, disciplina e desempenho operacional.  Para fortalecer o engajamento dos motoristas ao longo da campanha, o Grupo Tombini utiliza ferramentas digitais como aliadas. Em parceria com a Carga Online, a empresa criou uma plataforma exclusiva onde os motoristas podem acessar treinamentos e acompanhar sua pontuação na campanha. Outro diferencial da iniciativa é o incentivo à troca de experiências entre os próprios condutores. Os motoristas são convidados a compartilhar dicas para pontuar melhor na campanha, que são divulgadas nas redes sociais da empresa — que juntas somam mais de 70 mil seguidores. Ao final de cada ciclo da Campanha Zero Acidente, os vencedores são revelados em uma cerimônia transmitida ao vivo nos canais digitais da empresa. O gestor de SSMAQ do Grupo Tombini, **Wilker Lytiery**, responsável pela organização da campanha, foi um dos apresentadores da última transmissão realizada em 21 de janeiro de 2026. Segundo ele, a iniciativa vai muito além de incentivar o cumprimento das regras de trânsito: > A live não comemorou campeões. A live comemorou a vida. Em 2025, foram 165 milhões de quilômetros percorridos pelo Grupo Tombini sem perder nenhuma vida por nossa culpabilidade. Isso não é sorte. É comprometimento, disciplina e família - no sentido mais sério da palavra. **Maurício Franco** é CEO da **Carga Online**, empresa desenvolvedora de uma plataforma que reúne diferentes funções para a gestão do caminhoneiro, incluindo a gamificação. Para o empresário, iniciativas como as do Grupo Tombini são positivas por utilizarem os dados sobre o perfil dos motoristas de forma construtiva. Segundo ele, um dos principais diferenciais da gamificação é permitir que a empresa dê visibilidade e clareza ao motorista sobre a dinâmica de avaliação, estimulando a evolução contínua: >Muitas empresas já contam com programas de incentivo estruturados, com critérios de avaliação e valores bem definidos. Em geral, o desempenho dos motoristas é apurado ao longo de um período — que pode ser mensal, bimestral, trimestral ou anual — e, ao final, aqueles que atingem as metas são bonificados. O problema surge quando esse acompanhamento não é compartilhado com o motorista de forma acessível e engajadora. Sem a aplicação prática do conceito de gamificação, as informações ficam restritas a planilhas internas, e o condutor, muitas vezes, só descobre se teve um bom desempenho no encerramento do ciclo. Nesse cenário, quem recebe a bonificação tende a aceitar o resultado sem questionamentos. Já quem não recebe, muitas vezes fica insatisfeito, justamente por não ter tido visibilidade dos indicadores nem clareza sobre como poderia melhorar ao longo do período. O resultado é o oposto do esperado: em vez de fortalecer o engajamento e a retenção, o programa gera conflitos, retrabalho e a necessidade constante de explicações. _  **O módulo de gamificação da Carga Online permite personalizar todos os critérios para avaliar o motorista, além de utilizar critérios automáticos, como o desempenho nos treinamentos da plataforma** ## Gamificação sob medida Segundo Franco, a chave para potencializar os programas de incentivo está em uma gamificação construída sob medida, respeitando a visão do transportador sobre o que deve — e como deve — ser avaliado. “É claro que contar com um sistema de pontos é importante para entregar dados ao motorista de forma simples e acessível. Mas a gamificação vai além disso. Ao digitalizar esses programas, precisamos considerar quais dados a operação já coleta, quais tecnologias já estão em uso e podem ser integradas, quais planilhas já são alimentadas e até qual investimento já é feito. Nada disso precisa ser descartado apenas porque uma tecnologia de gamificação está sendo implementada”, explica. Para ele, os dados de telemetria seguem sendo um dos pilares mais relevantes, mas a avaliação do motorista não precisa se limitar a esses dados: >Multas, comportamento no cliente, desempenho em treinamentos, tempo de empresa e diversos outros KPIs importantes... Tudo isso pode estar na regra do jogo. O fundamental é criar um canal em que o transportador consiga calibrar seus próprios indicadores. Se o foco será maior em direção econômica, direção segura ou retenção de talentos, quem define é a operação. Depende muito da dor de cada negócio. Além de critérios personalizáveis, o especialista destaca que a gamificação ideal também precisa respeitar a dinâmica de competição que faz mais sentido para cada operação: >É comum pensarmos em competições entre motoristas de uma mesma transportadora, mas as possibilidades vão além. Um embarcador, por exemplo, pode criar disputas entre motoristas de transportadoras diferentes. Ou ainda, o motorista pode competir consigo mesmo. Ele começa com a pontuação máxima e, a cada violação, perde pontos — e, consequentemente, parte da bonificação. Em casos de violações ou ocorrências graves, essa pontuação pode até ser zerada. O que importa é ter um modelo de gamificação flexível, que coloque as informações nas mãos do motorista no momento certo. Ele precisa saber que os indicadores existem, estar treinado para melhorá-los, sofrer as consequências quando erra e ser reconhecido pelos seus méritos. ## Sobre a Carga Online A Carga Online é uma plataforma digital desenvolvida para apoiar transportadoras e embarcadores na gestão de caminhoneiros, reunindo ferramentas de capacitação, programas de premiação, envio de documentos e checklist veicular. O módulo de gamificação permite digitalizar programas de incentivo já existentes e/ou criar novas campanhas de forma personalizada, transformando indicadores em informações acessíveis ao motorista e em relatórios úteis para o gestor.